domingo, 13 de maio de 2012

Confusão no Velório


Catalepsia é o nome de distúrbio em que o paciente fica em estado de morte aparente . Diminui-se o batimento cardíaco e a respiração, e só com exames clínicos se comprova a permanência de vida.
Dona Arilda nada disto sabia e com certeza também não todo o povo reunido no velório do Seu Osvaldo .
Ela durante muitos anos foi empregada de minha sogra e adorava contar estórias enquanto cozinhava.
Bom ouvinte que sou sempre lhe pedia uma novo caso.
O velório corria em sala sem janelas, só um basculante em uma parede arejava o ambiente, na associação de moradores do morro.
Seu Osvaldo era pessoa conhecida , já havia passado dos 65 anos, a vida toda morando no morro ,mantinha duas casas na favela .
Uma logo na subida era da mulher oficial, a outra mais em cima era da namorada.
As duas se conheciam,  todos também sabiam do arranjo que ele mantinha com a pensão de aposentado dos Correios.
Pois numa destas subidas para a casa da namorada, após o almoço em casa e muitas doses de pinga, Seu Osvaldo apagou na rua.
Em dia de muito calor carregaram o velho para a sede da associação de moradores onde o enfermeiro de plantão deu o diagnóstico , morto.
A notícia correu e de imediato se ajeitou o velório naquela sexta-feira.
Sujeito popular que era trouxe seu velório muita gente para vê-lo .
Apareceu alguém com uma garrafa de gim, outro trouxe um conhaque , e começou-se a “beber “  o morto.
 O velório ficou animado, pouco faltava para aparecer um cavaco e um tamborim.
Tudo parou porém quando a namorada apareceu .
O perfume que havia colocado em excesso a denunciava com metros de distância.
Aproximou-se do caixão e lascou um beijo na testa do falecido enquanto dizia :
- Osvaldo meu amor , não me deixa .....
Dona Arilda acha que foi o perfume a causa pois nesta hora o morto espirrou e sentou-se no caixão perguntando :
- Gente, o que é isso , o que está acontecendo ?
Dona Arilda não sabe se alguém respondeu pois na correria e gritaria  para sair da sala todos tentavam passar pela única porta ,as pessoas se empurravam ,cadeiras foram reviradas, havia gente desmaiando ao ver o morto levantando .
Ela, mesmo gordinha, subiu em uma cadeira , passou pelo basculante sem saber como e correu muito.
Só parou ao chegar em casa quatro ruas depois.
Perguntei , e o Seu Osvaldo, viveu muito depois disso ?
Respondeu-me que o velho ainda viveu muitos anos mas ela não quis ir ao segundo velório .
Vai que ele levanta de novo me disse fazendo o sinal da cruz.

terça-feira, 1 de maio de 2012

Tragédia Musical


Tive a sorte de ganhar um vizinho que estuda música.
No presente caso estuda bateria.
Assim em alguns finais de semana temos a sorte de ouvi-lo repetindo inúmeras vezes um mesmo trecho, uma mesma sequencia de passos.
Minha sorte é que ensaia em seu terraço, assim só fecho a porta de acesso ao meu e não incomoda muito.

Estudar música exige isso, por repetição exaustiva se aprende, se afina o toque.
Conversei uma vez em sala de embarque de Congonhas com um concertista de piano.
Disse-me que estudava pelo menos 4 horas diárias, a repetir várias vezes um mesmo trecho de uma obra clássica.
Nada mais chato para quem escuta é isto, ele mesmo reconhecia.

Pois outro dia F. me contou a estória de como resolveu parar de aprender a tocar guitarra.
Entrou em seu quarto para estudar e deixou o gato da casa entrar.
Fechou a porta, a janela, abriu o guarda-roupa para ajudar a absorver o som, e começou a repetir os acordes iniciais de Smoke on Water sentado em sua cama.
A introdução deste clássico do Deep Purple acredito ser uma das mais conhecidas em solo de guitarra.
O gato, sentado próximo a cama de F., tudo assistia.

Depois de 1 hora e meia repetindo sempre a mesma sequencia inicial, o quarto todo fechado, sentindo calor e o ar viciado, F. resolveu abrir a janela .
Pois aí deu-se a tragédia.
Enxergando um espaço para fuga o gato saltou pela janela do 12º andar.
Suicidou-se, não aguentou mais.