sábado, 28 de junho de 2008

Falando Devagar

Muita gente , notadamente pessoas simples, pensa que se falar devagar , quase que soletrando , se torna compreensível para quem não fala português .
Estava em Salvador , no restaurante do hotel na Barra , em um domingo em 1987 quando vi exemplo disto.
Durante aquele período passava 3 semanas em Salvador e uma no Rio , para acompanhamento da instalação da área de sistemas na fábrica.
Em uma mesa próxima a mim notei um casal e 2 crianças pequenas , de 3 a 4 anos de idade .
Cabelos loiros , quase brancos , olhos azuis , a pele muito branca indicavam ser estrangeiros .
A presença à mesa do casal com as crianças me trouxe mais saudade de minha família , almoçava sozinho naquele domingo .
Algumas frases soltas ditas pelo casal às crianças me chegavam , deduzi serem turistas de algum dos países nórdicos já que o que falavam não era inglês , alemão , francês , nem possuía característica das línguas eslavas.
Estava eu neste estado de observação quando adentra o salão a baiana com o carrinho de sobremesas.
Aproxima-se do casal , os cumprimenta e pergunta :
- Olá , tudo bem ? Vocês querem sobremesa ?
O casal se entreolhou e olhou de volta para a baiana . Nada haviam compreendido , uma oferta de viagem para Marte parecia ter sido lhes oferecida .
Percebendo o não entendimento , a baiana atacou de novo :
- Ok , vou falar devagar . Vo-cês que-rem so-bre-me-sa ? So-bre-me-sa .
Parada junto a mesa , as mãos entrelaçadas junto ao corpo , sorriso aberto , esperou desta vez ter sido compreendida .
Comecei a rir da situação , o casal percebe que estou rindo e após se olhar começa a rir também após pedir desculpas em inglês por não falar português .
A baiana vira-se para um garçom próximo e dispara :
- Etâ gringo burro , não entende nada do que eu falo , me acode aqui fulano .
Antes da chegada do garçom , resolvo intervir e faço as vezes de intérprete em inglês .
O casal me agradece , pergunta qual é a sobremesa típica da região , indico o quindim . Para as crianças pedem sorvete de morango .
Sucesso total com a baiana , acabei de marcar ponto importante , ganho também um quindim .
Fiquei curioso e perguntei ao casal como haviam escolhido os pratos do almoço , o menu que tinham na mesa não tinha descrição dos pratos em inglês .
Elementar , no menu havia um prato de nome Steak com fritas , haviam deduzido corretamente , afinal Steak and Fries é prato encontrado no mundo todo .
Despedi-me , desejei-lhes ótima estada no Brasil , recomendei a ida ao Rio e ao Maracanã em dia de jogo do Flamengo.
A baiana correu para abrir a porta do restaurante para mim .
- Muito obrigada meu rei , você viu a dificuldade , como esse pessoal que vem para cá é burro .

quinta-feira, 26 de junho de 2008

Interpretando obras de arte

Estávamos fazendo a apresentação do projeto automação de lojas ,no início dos anos 90 , para os participantes da convenção anual da rede de lojas onde trabalhávamos .
A convenção acontecia nas salas do já extinto Hotel Nacional , em São Conrado , Rio de Janeiro .
Na parte da tarde , após o almoço , a primeira apresentação ocorria somente às 15 horas , ficávamos portanto fazendo hora e flanando pelo Hotel .
Descobrimos assim que próximo ao lobby do hotel acontecia ,naquela semana, uma exposição de obras de arte , esculturas e quadros de diversos artistas.
Para lá nos dirigimos , eu e Paulo , para conhecer e observar as obras e matar o tempo .
Paulo , analista de organização e métodos , vestia-se em padrão do típico yuppie .
Dono de excelente bagagem cultural , discorria com facilidade sobre qualquer tema.
Na entrada da exposição a primeira peça que vimos foi uma representação em granito de um Dom Quixote , lança em punho , sem a presença dos moinhos de vento .
Brincando , e provocando Paulo , perguntei :
- Paulo , o que busca representar o artista com este Quixote ?
Este que não se fazia de rogado , começou a "interpretar " a obra .
- Aqui o artista busca representar o eterno paradoxo da vida humana . Paradoxo porque é êfemera mas ao tempo luta sempre com os diversos moinhos de vento de Quixote , propositalmente aqui não mostrados e blá bláblá .....
Brincávamos pois já havíamos comentado antes a enorme batatada que sempre se ouve quando das exibições de peças de arte .
Passando para a outra peça , um quadro , provoquei de novo :
- E este quadro Paulo , o que o artista busca mostrar ?
- É quadro fortemente influenciado pela escola impressionista francesa , claramente demonstrado pelo uso das cores e luz mas traz também , pelas marcas das pinceladas e das figuras humanas , a presença tênue da escola modernista , e blábláblá ......
No próximo quadro não precisei provocar , Paulo disparou o discurso novamente .
Percebendo algo de diferente olhei para trás e vi que um grupo de 3 pessoas acompanhava a explanação .
Paulo já havia notado e tinha encarnado o personagem de crítico de arte .
As pessoas , provavelmente , haviam pensado tratar-se de guia a conduzir visitas pela exposição .
Por mais 3 obras a visita "guiada" continuou , acenos de cabeça eram vistos , a produzir confirmação para a enorme batatada que Paulo produzia .
Até que chegamos em frente a um quadro em que um losango dividia a tela .
Em seu centro a côr rosa , os quatro cantos com cores diferentes , amarelo , azul , verde , vermelho .
Dirigindo-se a mim , Paulo iniciou o discurso :
- Esta peça representa a totalidade da essência do processo criativo do artista .
O azul remete a divindade , a côr do céu , a presença do artista perfeito , sem falhas . Como não consegue atingir a perfeição , representa o artista sua tristeza no amarelo , mas guarda ainda resquícios de esperança de atingir a maestria , a obra perfeita , através do verde , pois é viva em seu ser a emoção , a paixão criadora , representada pelo vermelho .
Com o silêncio , peguntei :
- Paulo , e o rosa ?
- Rosa é coisa de viado , este artista deve ser uma tremenda bichona .
As gargalhadas deram fim a visita .

quarta-feira, 25 de junho de 2008

Tomada de Decisão

Jornais e revistas de negócio volta e meia noticiam vendas , fusões , aquisições de empresas , algumas com valor de centenas de milhões de dólares .
Sempre tive curiosidade para saber como um destes processos se havia iniciado , qual tinha sido a ideía percursora do projeto , quem tinha feito a primeira reflexão .
Testemunhei que uma frase dita numa reunião de foco distinto pode disparar uma destas ações.
Estava acompanhando uma reunião em uma das lojas de uma grande rede , em que se apresentava qual os perfis dos clientes desta empresa .
Os perfis obtidos eram resultado de longo trabalho de pesquisa e ajudariam a determinar ações estratégicas da empresa como nível de serviço , sortimento das lojas , preços , etc .
A reunião ocorria com a presença dos diretores executivos da rede e de J.P.L.
J.P.L é um dos maiores empreendedores do país , seu grupo é conhecido por ações de desenvolvimento de estratégias de sucesso , com forte base de desenvolvimento de talentos e meritocracia.
Apenas ouvindo eu prestava muito atenção na apresentação e na postura de J.P.L. .
A apresentação foi até o final quando se iniciaria a discussão de ações de desdobramento .
Neste momento M.C. , diretor comercial da então divisão de supermercados da rede, apresentou sua avaliação inicial :
- Isto é por demais interessante mas acredito se aplicar mais à divisão de lojas de departamento , não à divisão de supermercados , que se fosse uma empresa distinta teria hoje um valor de 350 milhões de USD.
J.P.L , então sem fazer comentário algum , inquietou-se .
- O que você disse C. , 350 milhões , como você chegou até este valor ?
- Simples, a divisão faturou 700 milhões no ano passado, considerando-se que a metade da receita bruta seja um bom parâmetro de avaliação ...
- Vamos então discutir isto .
Esta reunião aconteceu em fevereiro, em março iniciou-se o processo de constituição de uma empresa composta apenas pela divisão de supermercados , vendida posteriormente a um varejista francês em outubro.
Qual foi o valor da venda ? 350 milhões de USD .

sexta-feira, 20 de junho de 2008

Mendigo Poliglota

Nós estávamos em Montreal para conhecer e avaliar uma solução de software para registro de vendas , a ser utilizada nas lojas da Europa e Estados Unidos.

Havíamos chegado em um domingo a tarde, tinhamos andado pela cidade, já conhecendo o percurso de 3 quarteirões que nos separava do hotel até o escritório do fornecedor que iríamos encontrar.

Parados em uma esquina, aguardando o sinal de pedestres , fomos abordados inicialmente em francês por um senhor que vestia uma camisa pólo branca, bermuda cáqui e tênis brancos. Utilizei o conjunto de palavras em francês que sempre me ajudam nesta situação:
- Perdão , não falo francês , o senhor fala inglês ?
Ante esta resposta o cidadão iniciou discurso em inglês em que pedia desculpas pela abordagem, vivia situação difícil, nos pedia um dólar , mas que ficássemos certos de que não era para consumo de álcool ou drogas.

Medina e Rogério são mãos de vaca profissionais . Desconfio mesmo que só andam de metrô ou trem pois assim não tem que abrir a mão para acenar para ônibus ou táxi.
Ficaram assim em total estado de mudez, sem demonstrar nenhuma reação de compreensão ao pedido feito.

Avaliando o cidadão que nos havia abordado, nunca havia visto pedinte tão bem vestido, ofereci :
- Não tenho moedas de dólar canadense , serve 1 dólar americano ?
A aceitação foi imediata,e antes de seguir seu caminho me perguntou :
- Seu sotaque não é da Inglaterra e nem me parece americano, de onde você é ?
- Sou brasileiro , venho do Rio .
Para me deixar agora de boca aberta me respondeu em português :
- Muito obrigado , tenha um bom dia !

Esse menino promete

Guilherme é o filho de Luciano e Adriana. Luciano, advogado e professor universitário é primo de Leila, foi nosso pajem no casamento.
Na energia própria de sua pequena idade, 2 anos, corria pelo play de um prédio onde acontecia um almoço de aniversário de amigos de seu pai .
Seu principal interesse eram um grupo de meninas de 6 a 8 anos que com ele brincavam.
O pai sempre atrás, acompanhando a correria , sentiu o cansaço e em determinado momento levou o filho para uma mesa, buscando um intervalo para descanso.
Não satisfeito com a pausa Guilherme perguntou ao pai :
- Onde estão as meninas ?
Querendo mais um tempo, Luciano tentou distraí-lo :
- Elas foram ao banheiro Gui , já voltam .
Um minuto depois vira-se Guilherme para o pai :
- Pai, meu nariz , tá sujo .
Sem olhar, Luciano pede a Adriana um paninho , daqueles que toda mãe de criança pequena carrega.
Ao observar percebe que foi enganado.
- Gui , seu nariz tá limpo !
- Paninho não Pai , quero ir ao banheiro .

terça-feira, 17 de junho de 2008

Piano e balé

Eu estava em Arembepe , no recém montado Centro de Processamento de Dados da fábrica .
Sim , a Área ou o Departamento de Tecnologia da Informação já foi Centro de Processamento de Dados .
O telefone tocou e do outro lado da linha estava Jovelina , assistente do CPD-Rio, às gargalhadas :
- Ely , eu não sabia que você fazia aulas de piano e balé .
- Não entendi .
- Acabou de ligar um sujeito , com voz toda melosa , dizendo que era seu professor de piano e balé , pediu para você não esquecer de buscar sua malha e sapatilhas. Expliquei que você estava viajando a trabalho , respondeu que assim você não poderia ter o papel da borboleta na peça que estão ensaiando.

Gosto de música clássica mas minha habilidade ao piano ou qualquer outro instrumento musical é zero.
Parei 1 segundo para pensar e o nome do culpado me apareceu rapidamente .
Só podia ser Márcio , grande amigo , compadre , e fora do trabalho um palhaço enorme .
Estava dando o troco de outra brincadeira que havia lhe preparado .
Aguentei as brincadeiras de Jovelina uns 2 minutos e desliguei , pensando no que iria preparar como troco a este trote.
O dia transcorreu normalmente até o momento em que Adailson , funcionário da área de pessoal, bateu na porta e pediu para me falar :
- Oi Ely , tudo bom ?
- Oi Adailson , senta aí , diga .
- Vocé sabe que nós temos um coral aqui na fábrica e que ensaiamos 2 vezes por semana , não sabe ?
- Sim , sei disso , vi a matéria que saiu no jornal interno , acho uma atividade bastante interessante para integração .
- Pois é Ely, o negócio é o seguinte, já que você toca piano muito bem, faz aulas no Rio , não quer se juntar esta semana a nós ?
Não perguntei a Adailson a origem deste seu "conhecimento " mas disse-lhe que havia sido brincadeira de um grande amigo, não era sério o assunto .
Saiu da sala achando que eu estava mentindo .

segunda-feira, 16 de junho de 2008

Pequenas Mentiras

Algumas pequenas mentiras ouvidas aqui e ali são por vezes engraçadas, por sempre exagerar na possibilidade de alguém acreditar.
Como a que ouvi contada por um caminhoneiro para outro em um posto da Dutra onde havia parado para um café e abastecimento :
- Rapaz , a curva era tão fechada mas tão fechada que conseguia pelo espelho lateral ver a minha placa traseira .....

Ou como as produzidas na conversa entre dois  sujeitos , em um bar em Bela Vista ( MS), cada um a contar vantagens de seu próprio cão :
- Meu cachorro é tão esperto que se você colocar café com leite para ele , é capaz de só beber o leite deixando o café .
- Isto não é nada , o meu perdigueiro é tão bom caçador , tão bom , que se ele sai comigo na cabine do carro e passamos por um caminhão da Sadia na estrada ele fica em pé e aponta .


A do pescador, no muro da Urca, lançando sua linha com bóia luminosa :
- Fui uma vez pescar em um açude no interior ,levado por um amigo,  mas o lugar  tinha tanto peixe , mas tanto peixe , que para colocar a linha  tínhamos que afastar os peixes com a mão na beira d´água .
A resposta do parceiro de pescaria foi melhor ainda :
- É , também conheço este açude . Uma vez fui lá pescar  e deixei os remos do barco cairem na água . Para não me molhar na volta caminhei por cima dos peixes que apareciam em cima do espelho da água.

Pescadores tem estórias fantásticas, uma delas foi aproveitada e virou comercial de marca de bebida .
O  sujeito pescava na beira de um lago, nada tinha pego e viu que tinha ficado sem iscas.
Ao olhar  para a margem viu uma cobra , não venenosa , saindo da água com uma perereca na boca .
Lembrou que pererecas pequenas podem dar boas iscas e assim pegou a cobra pela cabeça com uma das mãos , com a outra espetou a  perereca com uma faca e a retirou da boca da cobra .
Jogou a perereca na lata de iscas .
Olhando para a cobra de boca aberta , pensando em como a deixar mais calma , pegou com a mão livre a garrafa de bebida que havia trazido e despejou pequeno gole pela boca da serpente.
A cobra revirou os olhos , pareceu relaxar , e assim com cuidado a colocou de volta  na água .
Corria a pescaria quando sentiu leve toque em sua bota .

Era a cobra de volta , com duas pererecas na boca.

domingo, 15 de junho de 2008

Tempero Baiano

Uma das empresas de varejo onde trabalhei por 12 anos realizava anualmente um encontro de gerentes , sempre no mês de outubro .

Era época de alinhamento de estratégias para o melhor período de vendas , treinamento de executivos , reforço de cultura interna e assim por diante durante uma semana .

Era oportunidade para encontrar e conhecer in loco pessoas de todo o Brasil , contatadas normalmente por e-mail ou telefone , que para o seminário convergiam .

O Fórum comercial do ano 2000 seria realizado em um resort na ilha de Itaparica, Ba , e para lá partiram todos os gerentes da empresa e a diretoria .

Num domingo embarcamos Eu , Lula ( o do bem ) , Alex V e demais profissionais lotados na sede do Rio para Salvador em vôo fretado da TAM .
Chegando a Salvador embarcamos nos õnibus a nós destinados com direção a estação do ferry boat .

Lá chegando , por volta do meio-dia , deveríamos aguardar a chegada dos demais participantes do Fórum que viam de todo o país .
Na estação uma animada festa acontecia em local reservado .
Cerveja rolava à balde e diversas opções de pratos eram oferecidas.
Olhando todo o povo presente caindo de boca no caldinho de sururu , vatapá , acarajé etc virei para Lula e disse :
- Lula , este povo não está acostumado com dendê e pimenta , isto vai dar problema .
Lula concordou e disse para ficarmos na margem de segurança .
Isto é pastel de queijo , ok , salgado de frango , ok , misto quente , ok , nada com tempero diferente passava .

Embarcamos no ferry-boat e a festa continuou rolando .
A embarcação deu volta completa na Baía de Todos os Santos antes de embicar rumo a Itaparica , com o povo mergulhando na culinária baiana .

O resultado da farra apareceu no dia seguinte pela manhã .
Ao me dirigir para o restaurante do hotel para o café da manhã vi 2 ambulâncias paradas em um pátio .
Um funcionário da empresa, totalmente lívido , era transportado em cadeira de rodas até uma ambulância.
Preocupado perguntei a um atendente de uma das ambulâncias :
- O que houve , enfarte ?
- Não meu rei , este aí passou a noite levando vida de samambaia .
- Vida de samambaia ?
- É meu rei , não saiu do vaso .

sábado, 14 de junho de 2008

Carpideira profissional

Celmo , meu cunhado, é uma grande pessoa. Boníssimo por natureza construiu com minha irmã Jussara uma família que muito admiro.
Trabalhava ele como assessor da diretoria da EMATER-RJ quando foi designado para uma missão chata.
Um funcionário da área administrativa da EMATER , com muito tempo de casa, havia falecido e, em nome da diretoria , deveria Celmo comparecer ao funeral levando a coroa de flores já providenciada.
O sepultamento ocorreria no cemitério de Inhaúma às 15 horas, o agora ex-funcionário chamava-se José Carlos , mais nenhuma informação lhe foi dada.
Quem deu esta tarefa a Celmo com certeza não sabia que ele se emociona muito facilmente.
À primeira lágrima que alguém derrama Celmo acrescenta as suas, tocado de verdade por emoção.
Acho que em outra encarnação Celmo deve ter sido carpideira profissional.
Pois para Inhaúma Celmo se deslocou levando a coroa de flores devendo um outro colega de empresa lá encontrá-lo.
Ao chegar procura as capelas e quando encontra a primeira com o nome de José Carlos resolve entrar.
Acha estranho, pois não reconhece ninguém, mas adentra ainda mais para posicionar a coroa de flores com os dizeres "Saudades eternas dos amigos da Emater " junto ao caixão.
É neste momento que o choro de uma senhora o golpeia.
Começa a chorar e não consegue se afastar do caixão pois passa a receber cumprimentos de outras pessoas que chegavam para o velório.
A cada menção de como era boa pessoa o falecido as lágrimas brotam em profusão.
As pessoas em voltam se admiram com a tristeza daquele amigo desconhecido do falecido, com certeza era uma grande e longa amizade que se encerrava .
Notando o atraso e lembrando de ter visto o nome José Carlos na primeira capela , infeliz coincidência, resolve o colega de Celmo procurá-lo e o encontra junto ao caixão do desconhecido.
Ao encontrá-lo pergunta :
- Celmo , o que você está fazendo aqui ? O velório é na capela 3.
Chocado pela revelação , Celmo não titubeia , pede licença , retira a coroa de flores e sai rapidinho.



Telefonema Presidencial

Um dos meus grandes amigos é Luiz Alberto .
Mas ninguém o chama por Luiz Alberto, o apelido Lula está até no crachá de identificação da empresa onde trabalhamos juntos e nos conhecemos .
Amigo e parceiro de bons e maus momentos é também torcedor do Flamengo e sempre vamos juntos ao Maracanã.
Estava trabalhando em SP e numa sexta-feira à noite , quase chegando em Congonhas para pegar o vôo para casa, resolvi ainda no táxi ligar para Lula.
- E aí companheiro Lula , tudo bem ?
Lula me respondeu que sim , tudo em ordem , perguntou-me onde estava .
Respondi que estava ainda em SP , mas que estava indo para o Rio .
Perguntei-lhe o que ia fazer no final de semana.
Respondeu-me que ia trabalhar no sábado , afinal de contas trabalhar em varejo exige dedicação , isto eu já sabia .
Acho que o termo que empreguei na resposta motivou a pergunta do taxista na saída .
- Isto é que um verdadeiro ministério a serviço . Estou chegando no Aeroporto , te ligo depois .
Pago a corrida e peço ao taxista para abrir a mala para que possa retirar minha bagagem .
Quando pego a mala o taxista me pergunta :
- O Sr. me desculpe mas estava o Sr. falando com o Presidente da República ? Vai sair alguém do ministério ?
Apenas sorri e não respondi, acho que naquele dia um taxista ganhou uma estória para contar .

Maldade de Escritório

A indústria química onde trabalhei tinha a época 40 % de seu capital controlado pela Bayer AG , os outros 60 % sob controle da Andrade Gutierrez . Como prerrogativa por sua participação no capital a Bayer detinha a indicação da vice-presidência , a diretoria comercial e a diretoria de produção .
O presidente a época da Bayer AG no Brasil era o Sr R.L. que também acumulava a vice-presidência da empresa onde eu trabalhava .
Figura fácil de se ver na empresa , onde comparecia sempre, era também figura constante nos jornais aparecendo em entrevistas e audiências com o então Ministro Delfum Neto , anunciando investimentos no Brasil , discutindo tarifas , etc .
Só que Leonardo não o conhecia .
Léo , recém admitido , mensageiro , estava na recepção do 18o andar substituindo Antônio , o porteiro , na hora do almoço naquele dia .
Saindo para o almoço abri a porta do andar no mesmo momento em que o elevador parava e dele descia o Sr R.L. . Com um leve aceno de cabeça retribuí o cumprimento do Sr. R.L. que imediatamente entrou .
Só não contava com a reação de Leonardo .
Este ao ver um senhor com cara de estrangeiro , de terno , desconhecido, sem crachá, entrando sem se anunciar ,saiu da mesa e foi atrás passando por mim como uma bala .
- Ei , Ei , aonde o Sr pensa que vai ?
Surpreso com a pergunta o Sr R.L. pára no corredor e, mais surpresos, ficamos eu e ele quando Léo o pega pelo braço e pede-lhe que retorne para ser anunciado .
Eu podia ter resolvido a situação na hora mas o sorriso de compreensão do Sr R.L. me calou . No fundo achei que queria ver como tudo se resolveria .
Léo o conduz até a mesa e lhe diz :
- O Sr. me perdoe mas as normas da empresa não permitem a entrada de desconhecidos. Com quem o Sr. quer falar ?
Sorrindo ainda, com extrema calma e gentileza , o Sr R.L. lhe diz :
- Eu vim ver o F., sou R.L. , temos uma reunião marcada no almoço.
- O Sr. quer dizer o Sr. H.F. nosso diretor comercial ?
- Sim , ele mesmo.
- Um minuto por favor que vou verificar se o Sr. H.F. pode lhe receber , ele é uma pessoa muito ocupada .
Léo disca o ramal da secretária do Sr H.F. , a Sra G.T., e avisa :
- Dona G. , tem um Sr. aqui na recepção , como é mesmo seu nome ...., Sr. L. querendo falar com o Sr F.
A resposta de G. o deixa desconfiado .
- O que ele está fazendo parado aí na recepção ? Porque ele não entrou direto ?
Desconfiado Léo aciona o botão que libera a trava da porta e pede que o Sr R.L. entre .
Após o Sr R.L entrar vira-se Léo então para mim e pergunta :
- Ely , você conhece este alemão ?
O capeta soprou no meu ouvido que podia então assustar Leonardo .
- Neguinho você só barrou o presidente da Bayer no Brasil , também vice-presidente desta empresa , um cara que toda hora é recebido pelo Ministro da Fazenda em Brasília .
Deu certo , a reação de Léo foi puro pânico .
- Ai meu Deus , será que ele ficou aborrecido ?
Disposto a jogar álcool na fogueira acrescentei :
- Não , nesta hora ele e o F. devem estar ligando para o Departamento Pessoal pedindo sua cabeça, o assunto está resolvido.
A reação chegou quase ao terror .
- Mas porque você não me avisou ?
- Léo, quando vi estava você pegando o homem pelo braço e o puxando pela portaria. Você não sabe que, no fundo mesmo, todo alemão é nazista e vai você, um neguinho de Caxias, puxar o cara pelo braço na maior intimidade ?
Se me metesse ao invés de um seriam agora dois os demitidos .
- Ai meu Deus , não tenho nem 3 meses de casa e acabei de comprar um armário duplex na Tele-Rio .
- Fica tranquilo Léo , a gente faz um vaquinha e te ajuda a pagar o restante das prestações.
O elevador pára e deixo um Léo resignado e infeliz na portaria .
Ao descer corro para o primeiro orelhão para esclarecer o assunto com o Sr R.L. e limpar a barra do pobre Leonardo.
A Sra G.T. atende o telefone e me tranquiliza .
- Ely , fica tranquilo , eles riram muito do acontecido e concordam que Léo agiu corretamente .
Saio tranquilo mas resolvo deixar Léo sofrer até minha volta .

sexta-feira, 13 de junho de 2008

Aviso certo , hora errada

Quem já trabalhou em fábrica sabe que estórias acontecidas em qualquer turno logo se espalham por toda a empresa .
A sede administrativa da empresa onde trabalhava era no Rio com fábrica localizada em Arembepe, próxima a Salvador.
Era normal portanto a presença de funcionários da sede em Salvador.
Orlando Careca era normalmente o motorista da fábrica que buscava os funcionários da sede, hospedados na orla de Salvador, para levar até Arempebe .
Pois naquela manhã, no trajeto entre a orla e a fábrica, Orlando não parava de rir .
Curioso perguntei o que tinha acontecido e, após respirar fundo, me contou .
Na madrugada, durante o turno, um funcionáro do almoxarifado havia passado mal com queda de pressão .
Atendido pelo médico de plantão na fábrica recebeu a recomendação e a dispensa para ir para casa,o mais cedo possível,já que seu turno só terminaria as 7 horas .
Após as 20 horas mantinha a empresa um esquema de ida e volta de Kombis a Salvador, para transporte de funcionários de hora em hora .
Assim não estava só no transporte o infeliz adoentado .
Ao chegar na porta de casa, às 3 horas da manhã , recebeu a ajuda de 2 colegas , temerosos que caísse no trajeto entre o portão e a porta de entrada.
Mas o pior ainda estava por vir, preso com fita durex na porta , estava lá o aviso deixado de madrugada pela esposa do infeliz .
"QUERIDO , FUI A FEIRA , VOLTO JÁ ".

Quando se tenta acertar e o pior acontece

O Internacional ia jogar em Caxias do Sul e para lá se deslocou a equipe principal da Gaúcha ( Rádio ) para cobrir o evento .
O locutor era conhecido e declarado torcedor do colorado que tinha como centroavante Claudiomiro, jogador forte, de veloz arranque, de curta passagem depois pelo Flamengo .
Pois o jogo seguia amarrado, o placar inalterado, quando a bola é enfiada por Falcão e Claudiomiro parte veloz, ainda do campo de defesa do Inter, em direção ao gol do adversário.
A locução foi assim :
- Vai Claudiomiro , avança Claudiomiro , vai vibrar o povo colorado , chutou e ....Puta Merda no travessão !!!
Percebendo a besteira o locutor se cala e durante alguns segundos nada se ouve .
Tentando acertar a situação o comentarista entra no ar :
- Senhores ouvintes , desculpem a cagada de nosso colega .

Na fila do Banco

Elisa tinha um pouco mais de 4 anos e me acompanhou até o banco .
Dia 10 do mês a fila estendia-se em curvas nas linhas marcadas no chão .
A nossa frente o rapaz se desdobrava em trejeitos , coberto de anéis e brincos , unhas pintadas em rosa , a reclamar da demora no atendimento , a suspirar seguidamente em voz fina .
Finjo que não presto atenção , a evitar o contato, pois sei que de nada adianta reclamar .
Não irá o banco aumentar os pontos de atendimento , o negócio é seguir calmo aguardando a vez .
Pois Elisa logo derruba minha pretensão de ficar em silêncio .
No seu olhar curioso , a perceber tantas bijuterias , a voz fina e os trejeitos , dispara a pergunta ao rapaz :
- Ei , você é menina ou menino ?
Uma eternidade se passou e antes que, pudesse pedir desculpas pela pergunta, o rapaz respondeu :
- Ai minha lindinha , eu sou menina em corpo de menino .
O caixa livre faz com que a fila ande e me livra do embaraço .

Não durma em avião

Meu pai adorava contar causos e estórias.
Algumas mesmo não sei separar se são ficção ou realidade .
Pois vinha meu pai ao Rio, partindo de Campo Grande (MS), em vôo que se tinha iniciado em Porto Velho.
Ao entrar e se sentar sentiu um forte cheiro de jaca .
Curioso olhou ao redor e viu um rapaz, aparência humilde, retirando gomos de jaca de uma sacola de couro .
Com o vôo em andamento olha de novo e vê o rapaz a engolir ovos cozidos .
A escala é feita em São Paulo e no assento em frente ao rapaz senta-se o típico executivo, terno bem cortado, gravata italiana , sapatos de cromo alemão.
Aparentando cansaço o executivo logo cai no sono .
Chegando ao Rio , na região da restinga de Marambaia, o avião sacoleja muito .
Observando o rapaz humilde meu pai percebe que algo não vai bem.
Não precisa de seu treinamento médico para notar que a palidez , o suor a escorrer pela face, indicam que a mistura de ovo, jaca, o lanche no avião , bem batidos pelo sacolejar do vôo produz revolução gástrica .
Desesperado o rapaz levanta-se e tenta abrir a janela do avião.
Não consegue por razões óbvias e golfo de vômito se produz, escorrendo parte pela poltrona da frente, no passageiro adormecido.
O rapaz senta-se e em seu olhar aflito, dirigido ao meu pai, pede silêncio .
No procedimento de aterrisagem, quando a comissária pede o retorno dos assentos a posição vertical, o executivo acorda e percebe o estrago .
Inquieto, tremendamente surpreso, começa a perguntar em voz alta :
- Meu Deus, o que é isso, o que aconteceu ?
A resposta vinda do assento localizado atrás foi singela .
- Moço , o Sr vinha durmindo e vomitando, durmindo e vomitando , o Sr miourou ?

Presente de Dia das Crianças

Era tão certo quanto o café na saída do restaurante à quilo na Visconde de Inhaúma, onde nós íamos pelo menos uma vez por semana , encontrá-lo logo após a porta .
Pequeno , físico mirrado , roupas simples , quase sempre de short surrado , camiseta e sandálias de dedo , nos abordava na saída oferecendo seus serviços de engraxate ou em caso de negativa nos pedia umas moedas .
Nunca engraxava meus sapatos mas sempre lhe destinava as moedas do troco recebido após pagar o almoço .
Naquele dia , véspera do dia das crianças , resolvi na hora agir de forma diferente .
Quando me abordou lhe perguntei :
- Você já almoçou ?
A resposta foi sincera e no tom que os humildes sempre empregam .
- Não Tio , no final do dia separo um dinheirinho e como um salgado na padaria, antes de ir para casa e levar o dinheiro para minha mãe .
Avisei-lhe então que se preparasse pois iríamos entrar de novo no restaurante e ele poderia pedir o que quisesse, tudo por minha conta , sorvete ou qualquer outra sobremesa incluídos.
Sua alegria e sorrisos são lembranças que carrego até hoje .
Entramos de volta e me pediu se ao invés de sentar não poderia ele fazer uma quentinha , já que tinha um amigo que com ele dividia o salgado quando não tinha ele o suficiente para comprar um.
A lição da solidariedade entre os necessitados me atingiu com força , porque não havia eu feito mais antes .
Ainda neste espírito vejo um segurança da casa se dirigir ao menino, a enxotá-lo do salão.
Com voz fria e firme perguntei ao segurança qual era o problema , estava o menino sob minha responsabilidade , a despesa correria por minha conta, o problema estava na presença do menino ou na qualidade do serviço da casa ?
Impressionante é como a visão de alguém em boas roupas e com voz firme produz resultado imediato naqueles que são covardes.
- Não doutor , não há problema algum .
Pois podendo escolher entre camarão , peixes , churrasco , frios diversos , saladas , montou o menino sua quentinha com pedaços de frango , arroz , batatas,  farofa e feijão.
Na hora de pesar sua quentinha me perguntou se podia mesmo pegar sorvete.
Respondi que sim , toda promessa é dívida e os filhos de meu pai mantêm a palavra .
No caixa se dirigiu a funcionária que tinha um enorme sorriso a lhe exibir .
- Viu Tia , hoje eu vou almoçar direito.
Paguei e saímos , a caixa começou a segurar o choro com lágrimas a correr pela face.
No lado de fora me pediu para abaixar , me deu um abraço apertado , carinhoso, e saiu em alegria a chamar o amigo na rua  para divisão do almoço .

O valor e a alegria daquele abraço trago até hoje.
Foi um enorme presente , pois naquele dia a criança que em mim vive foi presenteada.

Só fatiado

Estávamos voltando da praia em um domingo a tarde quando Leila me pediu para parar o carro próximo a padaria e comprar queijo e presunto para a pizza da noite .

Ao entrar na padaria o cheiro forte e delicioso de bolo de milho me atacou, como acontece nos desenhos animados.

A imagem de um bule de café cheiroso, pães e bolo me veio com força tornando irresistível a compra .
Como um bom sabujo fui atrás do aroma até um balcão onde um Sr estava a retirar um bolo retangular de 60x40 cm da forma.

Pensando no café da tarde e cometendo o pecado da gula perguntei ao Sr :
- Por favor,qual o preço do bolo inteiro ?
A resposta veio com forte sotaque lusitano :
- O bolo é vendido a quilo,são X reais o quilo.
Pedi-lhe então que pesasse o bolo inteiro que iria levar .
Rindo,como a explicar a um parvo,o Sr me respondeu :
- Não, o Sr não pode levar assim .
Sem entender perguntei o porque, a balança não era grande o suficiente para pesar o bolo inteiro ?
Ainda rindo com ironia , respondeu-me que claro que a balança era grande , mas que as fatias é que eram pesadas e vendidas .

Não quis alongar a conversa , pedi-lhe de imediato :
- Ok, por favor então , corte em fatias todo o bolo , pese uma a uma , anote o valor de cada uma , some as parcelas pois vou levar todas .
Assim foi feito e saí da padaria com o bolo todo fatiado .

Diferença de estilo

Há muitos anos atrás a empresa onde trabalhava praticava controle sério e estrito das alterações em sistemas em produção .
O que hoje é merecedor de capítulo de atenção nos livros de gestão de TI para nós era prática do dia a dia .
Na época atuava como DBA na gerência de suporte a aplicações .
Depois da liberação de uma versão de software todos os relatórios ligados a emissão de pedido nas lojas deixaram de ser impressos .
Diante dos chamados urgentes no Help Desk , Ivone , então gerente do departamento me pediu para investigar possível falha de infra-estrutura.
A primeira coisa que fiz foi olhar a relação de programas do módulo de pedido que haviam sido alterados , que estavam agora em produção , e que imprimiam relatórios .
Logo no primeiro programa , olhando o texto fonte , percebi a razão da falha .
A chamada da rotina de impressão havia sido marcada como comentário , não sendo portanto executada .
O mesmo se repetiu no segundo , no terceiro , no quarto programa quando encerrei o diagnóstico e comuniquei a Ivone a razão da falha .
Soltando fogo pelas ventas Ivone me perguntou quem tinha sido o responsável pelas alterações feitas.
Tínhamos como prática registrar como comentário no início do programa fonte , em ordem histórica , toda e qualquer alteração feita bem como seus motivos .
Voltei aos fontes e em todos encontro o registro feito pelo Sr N , como sendo o responsável pela última alteração .
No controle de mudanças também encontro o nome do Sr N como o responsável pelas mudanças ligadas a um determinado assunto .
Ivone me pediu então para procurar o Sr N e pedir a correção urgente de todos os programas.
Quando encontrei N este negou de imediato sua responsabilidade pela falha, devendo ser antes de mais nada um problema de infra-estrutura .
Pedi-lhe então que abrisse em edição qualquer um dos programas e visse a marcação da chamada da rotina de impressão como comentário .
Rindo com ironia N finalmente se dispôs a editar um dos programas .
Ao ver a marcação sua resposta foi histórica , permanecendo por muitos anos no anedotário da área .
- Esta letra não é minha !

Sempre se encontra um brasileiro

Estávamos em Frankfurt em apresentação para a filial da empresa na Alemanha do novo sistema, desenvolvido no Brasil , que iria fazer o controle da gestão logística e de registro de vendas nas lojas .
Daniella , responsável pelo módulo de vendas em lojas , havia planejado comprar um sobretudo , aproveitando a enorme diferença de preço em relação ao Brasil , sabendo que seria utilizado já que durante a implantação do sistema , em fevereiro ,estaríamos sofrendo sob o frio do inverno alemão .
Na saída do escritório após às 18 horas fomos então a H&M onde esperava Daniella encontrar o que buscava .
No segundo piso da loja , abaixo de um cartaz indicando o preço de 39 euros , estavam expostos vários sobretudos femininos em diversos tons de preto e cinza .
Feliz pelo achado Dani separou um sobretudo preto e foi experimentar escolhendo também luvas e um cachecol.
Andei pela loja e fui encontra-la no caixa onde a vejo com cara amarrada .
Pergunto o porque e me responde que ao acompanhar o registro dos itens percebeu que o sobretudo , tão desejado , havia sido registrado por 89 euros . Protestou em inglês a funcionária que estava no caixa , informando que um cartaz na loja indicava o preço de 39 euros .
Gentil a funcionária da loja informou que iria chamar a responsável pelo setor para esclarecer a diferença e nisto estava Daniella a aguardar .
Surge então a funcionária responsável pelo setor .
Pelo diálogo em alemão , desta com a caixa, percebo a negativa do que Daniella queria .
Em inglês a caixa nos pede para mostrar onde Dani havia pego a peça .
Para lá se dirigiram Daniella e a supervisora gentil como um trator .
Quando retornam noto pela cara amarrada de Daniella que as coisas não andaram bem .
Disse-me que ao encontrar o cartaz a supervisora o recolheu e , em inglês difícil, informou a Daniella que o preço estava errado e que , provavelmente , um outro cliente havia pendurado o sobretudo no expositor errado .
A revolta de Daniella é expressa dizendo a mim que tinha vontade de mandar a supervisora ir catar coquinho , em bom português, já que estava claro que se um erro havia sido cometido não era responsabilidade do cliente o preço errado .
Peço a funcionária do caixa a presença de um gerente da loja .
Após alguns minutos surge um gerente que me repete a alegação de que um cliente deveria ter posto a peça no expositor errado .
Retruco que havia um cartaz com o preço de 39 euros , retirado pela supervisora , e que ele poderia verificar que no mesmo expositor haviam pelo menos mais 15 sobretudos do mesmo modelo. Pondero ainda que como cliente sou orientado pelo preço exposto , compromisso do varejista na transação de venda , e que não pode ser alterado para mais no check-out .
Assim se procedia em qualquer lugar do mundo no varejo sério e civilizado .
Depois de me ouvir o rapaz conversa em alemão com a supervisora e me pede para esperar pois iria ver o que estava exposto .
A meu lado Daniella , ainda revoltada , continua a me dizer que na saída vai expressar sorrindo , em tom baixo , em português , à supervisora do setor seus melhores desejos de viagem .
Quando retorna o gerente nos pede desculpas e , assumindo o erro , autoriza a caixa a cobrar o preço de 39 euros .
Mas onde está o sobretudo ?
Enquanto aguardávamos o item havia sido retirado do caixa pela senhora merecedora da afeição e carinho de Daniella .
Esperamos mais um pouco e a supervisora retorna me entregando o motivo da discórdia .
Estendo o braço para entregar o item a caixa mas Daniella me interrompe em português .
- Espera Ely , deixa eu ver se é este mesmo e se está tudo ok .
A Sra então nos surpreende :
- Ué , vocês são brasileiros , eu também sou , nasci em São Luís , estou há 26 anos aqui .
Para espanto dela , pensando em Dani a lhe desejar um destino e da situação que iria ocorrer , comecei a rir .
Saímos rapidamente .




Um Vôo Complicado

Os primeiros anos de minha carreira profissional foram desenvolvidos em uma indústria química com sede na época no Rio e fábrica em Arempebe, Bahia .
Tinha uma reunião agendada para uma segunda feira de janeiro , logo cedo pela manhã na fábrica , e por isto estava viajando no final da tarde de domingo para Salvador .
O domingo tinha sido daqueles de cartão postal de verão carioca , céu azul sem nuvens , praia de águas mornas sem ondas , a lombeira do final do dia me atingindo com força .
Planejava marcar um lugar no avião sem companhia ao lado para dormir durante o vôo , chegando em condições de preparar o material para a reunião já no Hotel .
No balcão da companhia aérea a primeira surpresa .
Apesar de estar com a marcação de confirmação no bilhete expedido pela agência de viagens meu nome não estava na relação de passageiros .
O supervisor , atrás do balcão , resolveu a situação dizendo a funcionária para emitir o meu cartão de embarque pois deveria ser problema de comunicação entre a agência e a companhia , não havendo problema maior já que o vôo estava com muitos lugares vagos .
Com o plano em andamento embarco e sento em uma das fileiras do meio da aeronave , sem ninguém ao meu lado , e peço de imediato um travesseiro.
È em estado de quase torpor que ouço ao longe a voz da comissária a iniciar o discurso de boas vindas tantas vezes repetido com o avião em deslocamento pela pista .
- Srs passageiros , a Cia X e o comandante V. em nome de sua tripulação lhe dão as boas vindas ao vôo XXX.......
O grito que se seguiu a esta frase me acordou por completo .
- O V. não ! De novo não ! Pára este avião que eu vou descer já !
Estico a cabeça e vejo 2 fileiras a frente um senhor de blazer azul escuro a se levantar, brigando com o cinto de segurança para se livrar .
Pega de surpresa , a comissária retruca :
- Sr , sente-se por favor , já recebemos a autorização para decolar , o vôo deve prosseguir .
A resposta é imediata e feroz :
- Com o V. não vou voar nunca mais , da última vez foram 3 tentativas para pousar com 2 arremetidas , este sujeito é um barbeiro dos ares !
Já solto o passageiro alcança o corredor e caminha em direção a comissária dizendo que se era assim ele iria saltar de qualquer jeito , pelo menos ainda no solo .
Gritos de espanto correm o avião e na tentativa de detê-lo a comissária abre os braços ,como um defensor de futebol americano , para agarrar o passageiro .
O resultado é que caem os dois , ele por cima , ela na ridícula posição de o ter entre suas pernas entreabertas .
O grito de um gaiato carioca só põe gasolina na fogueira armada .
- Êpa , sexo em avião só no banheiro !
Perdendo totalmente a calma a comissária começa a distribuir tapas no passageiro na tentativa de se ver livre da situação vexatória .
Este já se livrando parte em direção a porta de embarque com gritos de “ Segurem ele “ a ecoar .
Já estou quase de pé quando vejo a porta da cabine abrir e um sujeito forte deter o passageiro.
Inteirado da situação este determina ao passageiro que se sente e permaneça quieto , caso contrário iria acionar a Polícia Federal em Salvador para detê-lo sob a acusação de perturbar a segurança do vôo, além de mantê-lo algemado até lá .
A situação se normaliza e em tom de brincadeira me dirijo ao casal sentado nos assentos ao meu lado , depois do corredor .
- Rapaz e não é que quase perco esta cena , não queriam me deixar embarcar .
A resposta me derrubou:
- Era seu anjo da guarda tentando lhe proteger , este vôo não vai acabar bem .
Na hora me vêem a cabeça os inúmeros casos de pessoas que perdem o vôo e escapam de acidentes , sempre por circunstância do acaso .
No meu caso pensei que haveria nos jornais o comentário da funcionária do balcão do check-in dizendo que eu havia pedido para embarcar no vôo fatal .
Resolvo levantar e passar uma água no rosto para afastar tais pensamentos funestos .
Duas fileiras atrás uma senhora tem uma Bíblia aberta e as contas de um terço entre as mãos em fervorosa oração .
Na volta do banheiro me abaixo e peço a ela para me incluir em seu pedido .
Em silêncio total correu a viagem só quebrado pelos gritos de alegria e aplausos quando do pouso perfeito em Salvador.
Ao descer procuro o Sr de blazer azul .
Não o vi mais .