sábado, 24 de setembro de 2011

Tipos de rua

Toda cidade, acho mesmo que todo bairro tem seus tipos conhecidos.
Em Ipanema a mulher de branco é figura conhecida por exemplo.
No Centro, quando trabalhava na sede da loja de departamentos, próximo a Praça Mauá,era fácil encontrar o maluco da tinta ou a doida beijoqueira.

O doido da tinta pedia dinheiro para realizar seu desejo.
Comprava uma lata de tinta em loja de material de construção e despejava sobre o corpo.
Um dia estava todo azul, no outro verde, em outro de branco, não fazia mal a ninguém.

A beijoqueira entretanto exigia atenção.
Andava pelas calçadas, maltrapilha, suja, mas ao avistar alguém que lhe despertava interesse corria, agarrava e lascava um beijo no desavisado.
Por algumas mulheres tinha especial aversão.
Izilda, uma colega da empresa, nunca havia lhe feito mal algum, nunca lhe dirigido a palavra, mas não podia a beijoqueira lhe ver que partia com tudo para a agressão.

Lembro de outro tipo que morava na rua de minha mãe.
Férias escolares, era comum a rapaziada de minha idade se encontrar toda noite em frente a um mesmo local.
Ficávamos ali jogando conversa fora, marcando ida a festas etc.
Pois era fato comum toda noite encontrarmos um senhor, já com mais de 60 anos, que sempre subia a rua voltando do trabalho totalmente alcoolizado.
Era nos ver e começava a gritar :
- E aí rapaziada, está tudo bem ? Quem quer jogar porrinha, sou o rei da porrinha .
Respondíamos sempre da mesma maneira :
- E aí tio, está tudo bem ?
Para provocar alguém sempre gritava Mengo, Mengo, o que fazia com que o senhor gritasse Vasco , Vasco...
Assim ficávamos até que a filha descia do prédio onde morava, após ouvir de casa o barulho provocado pela chegada do pai e desse jeito o levava para casa.
Um dia o enredo foi diferente.
Estávamos no mesmo local quando um táxi parou e o motorista pediu ajuda.
Ao nos aproximarmos ele disse:
- Vocês conhecem este senhor que está aqui atrás ?
Quando olhamos no banco traseiro estava o rei da porrinha .
- Sim, conhecemos . Porque ?
- Graças a Deus, quando entrou no meu carro ele disse o nome da rua. Quando perguntei o número ele simplesmente me disse "Não saberás jamais " .
Vi que está completamente mamado, é um senhor, por pena resolvi trazer.
Vocês podem me ajudar ?

Mário saiu e foi até o prédio onde ele morava chamar a filha para resgatar o pai.
Na volta pela primeira vez ela falou conosco, pagou o táxi e nos agradeceu.
Não me recordo muito de suas feições, guardo entretanto a imagem de um olhar triste.






quinta-feira, 22 de setembro de 2011

Fumar pode lhe fazer mal

O fato de fumar em locais abertos, ao ar livre , me traz situações e comentários vez por outra .

Como no dia, em que ao sair da agência do banco na rua Visconde de Pirajá, sou abordado por uma pessoa que me cumprimenta em voz alta :

- E aí cara , como você está ? Tá tudo bem ? Onde você está trabalhando agora ?

Sou bom fisionomista, guardo a imagem de um rosto conhecido, posso esquecer o nome de quem já conheci, mas não esqueço o rosto.

O rosto me era totalmente desconhecido mas, a forma com que me abordou, me deixou em dúvida .

Será que não conhecia mesmo o cara que me cumprimentava de forma tão espontânea ? Assim respondi :

- Eu estou bem, graças a Deus, trabalho aqui perto, e você ?

Minha esperança era que ao responder uma dica aparecesse para saber de onde a pessoa me conhecia .

- Eu estou fazendo um trabalho por aqui .

Olhou em direção ao meu bolso na camisa e continuou :

- Pôxa cara , você continua fumando ?

Disse isso e esticou a mão em direção ao meu bolso , como se fosse pegar meu maço de cigarros.

Achei que era um gesto abusado, com a mão direita afastei a mão que tentava pegar meu cigarro e disse-lhe :

- Peço-lhe desculpas, mas não o reconheço, de onde você me conhece ?

- Não lhe conheço não , mas estou vendendo algumas canetas . Você não gostaria de comprar pelo menos uma para me ajudar ?

Como abordagem para venda esta tinha sido a pior que já tinha visto.

Respondi diretamente e fui embora .

- Cara , você é um tremendo cara de pau . Fui !

Ainda na Visconde de Pirajá, em outro dia, esperando para atravessar a rua em direção a Garcia D´Avila um senhor ao me ver fumando comenta :

- Fumar vai lhe matar !

Não deixei passar um segundo e respondi na lata :

- Encher o saco de quem não se conhece também é causa de morte.

Tenha cuidado também !

O senhor arregalou os olhos e ficou parado enquanto lhe dava as costas e atravessava a rua.

sábado, 17 de setembro de 2011

Pérolas II - Soletrando

Li há alguns dias post no Facebook, em defesa da língua portuguesa, em que se lista algumas pérolas de grafia que as vezes encontramos em comentários, e-mails, etc.

O post falava das preciosidades como “seje “, “esteje “, “perca“, “menas” e outros termos que volta e meia são utilizados.

Não sei mesmo se termo é a definição correta a se usar pois não existem como palavras .

Pensando de maneira mais positiva lembro dos textos de Guimarães Rosa, talvez sejam estas pessoas escritores em potencial.

Já recebi mais de um e-mail de profissional de varejo em que se alertava para medidas para combater “perca “ de venda .

Mesmo respondendo que não haveria perda, com a palavra grifada, em outra nota vinha novamente a menção a “perca “.

Lembro de ocasião em que ao final de um projeto com sucesso recebi nota de parabéns do então superintendente de TI :

“Você é mesmo um craque , que nem Romário , um grande proficional “.

Quando li a nota falei com um colega de equipe :

- Acho que L. está zombando, olha a nota que ele me mandou , profissional escrito deste jeito ?

- Ely, para mim ele também escreveu assim . Acho que ele não acredita no corretor de textos .

Mas as vezes estas bobagens produzem situações hilárias .

Estava eu sorteando brindes de fim de ano, que havia recebido, entre os membros de minha equipe .

Um dos mais aguardados no sorteio era uma garrafa de uísque 12 anos .

Puxei o nome sorteado e disse apenas para provocar :

- Atenção, o ganhador deste brinde tem a letra A no nome .

Foi o que bastou para Renato se manifestar soletrando cada sílaba de seu nome :

- Re-na-to de Me-lo Mou-ra , Moura , Moura tem letra A , estou dentro !

No meio da explosão de risos, Renato fez uma cara de espanto, que só passou quando Alessandro lhe disse :

- Bebê não me envergonha, quais as letras de seu primeiro nome minha criança ?

sábado, 10 de setembro de 2011

Pecado da Gula

As vezes o pecado da gula pode realmente levar a situações muito desagradáveis. Lembrei de algumas situações assim quando conversávamos na hora do almoço , eu e parte da equipe em trabalho extra no sábado.

Alguém sempre lembra de uma pessoa que só vai na aba na hora do churrasco marcado , na hora de trazer o biscoito , ou de sempre estar filando a bala , o bombom dos outros.

Na primeira empresa que trabalhei assim acontecia , era deixar um pacote de balas na mesa e se ausentar que , batata, as balas sumiam .

Sou da opinião que um pedido simples resolve muito , pegar sem pedir, sem nada falar , é muita cara de pau .

Resolvi o mistério comprando um pacote de balas azuis, isto é deixam a boca toda azul , numa loja de artigos para mágicos na rua da Uruguaiana.

Larguei o pacote e esperei o resultado .

Encontrei o mensageiro aflito no banheiro lavando a boca toda cheia de tinta azul que, no esforço para se lavar, havia pingado na camisa.

A estória se espalhou , nunca mais pegaram algo em minha mesa.

Isaac me contou outra situação dessa.

Renato sempre teve o olho maior que a boca.

Isaac então , para aprontar , separou de caixa onde havia retirado um monitor um punhado grande de flocos verdes de isopor , usados para proteção do equipamento na embalagem .

Colocou os flocos em uma cumbuca de plástico, falou com Alessandro sobre o que ia fazer e sentou-se a mesa.

Sentado atrás de Alessandro e ao lado de Renato fingiu estar mordendo e engolindo o “biscoito “.

Alessandro, ciente da estória , virou-se para trás e pegou dois , fingindo também comer.

Foi o que bastou para Renato cair na armadilha :

- Pô Isaac , vocês comendo e nem oferece ?

- Pega aí .

Levantou-se , encheu a mão e colocou um punhado em sua mesa voltando a trabalhar.

Mordeu , engoliu o primeiro e reclamou :

- Isaac , isto está sem sal nenhum , é biscoito velho ?

- Tenho 2 envelopes de sal aqui , quer ?

- Passa aí ...

Segurando o riso Isaac viu Renato polvilhar sal no punhado de “biscoitos “ e mastigar e comer outro.

A estória ia assim até Cristina Brito entrar na sala , ver o punhado separado na mesa de Renato, e perguntar :

- Renato , o que é isso que você está comendo ?

- Skiny , pega aí , quer ? Isto dito colocou mais um na boca.

Cristina pegou , cheirou e disse em seguida:

- Renato , você está comendo isopor ?

A risada de Isaac e Alessandro fez com que Renato cuspisse tudo que tinha na boca .