segunda-feira, 28 de julho de 2008

Força de Argumentação

A rua onde moro durante muitos anos teve seu trânsito em mão dupla. Porém, com a proximidade da Universidade Estácio de Sá, recebia ( ainda recebe ) muitos carros de alunos que estacionavam nos dois lados da rua, tornando quase impossível o trânsito nos dois sentidos .
Naquele dia saí da garagem precedido por outro carro que, exatamente como fiz, dobrou a direita logo após o portão .
Não conseguimos avançar 10 metros .
Um outro automóvel subia em sentido contrário e mesmo tendo um espaço, a sua direita, onde poderia entrar e nos dar passagem, parou no meio da rua bloqueando o trânsito .
Diga-se que estava parado de maneira em que não era possível a quem descia encontrar espaço para lhe dar passagem .
O motorista a minha frente saiu do carro e foi tentar argumentar com o motorista irredutível .
Logo voltou para seu carro .
Tendo-o reconhecido perguntei :
- Hélio , o que houve ?
- Ele disse que nós estamos errados, que a rua é de mão única, somente subindo, e por isso não vai sair . Se nós quisermos sair temos de voltar de ré para ele passar.
Fui tentar argumentar, a razão era absurda, a rua há pelo menos 20 anos era de mão dupla e ele podia manobrar .
Atrás de meu carro pelo menos outros 4 carros estavam já parados .
Atrás do motorista que se negava a sair ninguém estava .
Quando me aproximei, o motorista, um rapaz magro, cerca de 20 anos, não me deixou falar .
- Não adianta vir falar comigo, eu não vou sair . Vocês estão errados ! No final desta rua tem uma placa que indica que o sentido único é para subir .
Respondi com o máximo de educação possível :
- Senhor, a placa a que se refere é visível somente para quem desce a rua e indica a obrigatoriedade de se virar a esquerda. Sendo assim está claro que o diz não é razoável, por favor saia do carro e veja .
- Não adianta, sou aluno da Estácio, passo todo dia aqui e eu sei que estou certo.
- Senhor , sou morador desta rua há pelo menos 20 anos, espero que não seja aluno da universidade com este tempo também, por isso lhe reafirmo que esta rua é de mão dupla.
- Esqueça, não vou sair . Vocês todos é que devem voltar . Sei que posso manobrar para dar passagem mas não vou fazer .
Um dos porteiros de meu prédio acompanhava a discussão rindo muito .
Para ele me dirigi :
- Fernando, por favor disque 190 e chame a PM já que o rapaz não quer sair .
Vamos esperar a PM chegar e resolver quem está certo .
Neste momento, indo já em direção ao meu carro, vi saindo de um carro posicionado 2 posições atrás do meu uma enorme figura .
Enorme talvez não o descreva corretamente .
Pois se passaram uns dois minutos e não parava de sair o sujeito de dentro do carro .
Aproximou-se de mim e com voz baixa e rouca a enorme figura de 2 x 4 metros me perguntou :
- Senhor, o que está acontecendo ? Porque o outro carro não quer nos dar passagem ? Daqui posso ver que ele pode manobrar para isso .
Expliquei que erroneamente julgava o rapaz estar em rua de mão única e que eu havia pedido ao porteiro para chamar a PM .
O Hulk então me perguntou :
- O Sr se incomodaria se eu tentasse convencer o rapaz ? Até a PM chegar muito tempo vai se passar e já são muitos carros querendo descer e só ele quer subir.
- Claro que não,por favor, ficarei grato se conseguir.
A enorme figura então se dirigiu ao sujeito . Curvou-se , falou algo que não ouvi , apontou para todos os carros parados e em segundos o rapaz manobrou dando espaço para nos dar passagem .
Passando por mim o enorme monstro me disse :
- Viu Senhor , eu consegui .
- Com certeza , seus argumentos devem ter muito mais força que os meus .
Abaixou a cabeça com um leve sorriso e voltou para seu carro .
Quando passei ao lado do motorista não mais irredutível não pude deixar de olhar e lhe endereçar um sorriso de 'agradecimento '.
As mãos e braços tensos ao volante , os dentes trincados de raiva , deram entender o que tinha sido dialogar com o Hulk .

terça-feira, 22 de julho de 2008

Garçom em Lisboa

Ouvi esta história de uma colega que jurava ter acontecido com V. , ex-funcionária de empresa onde também trabalhei .
Com uma amiga residindo em Lisboa ia a Portugal pelo menos uma vez a cada dois anos , dali sempre partindo para Madri , Paris ou qualquer outra capital .
Estava V. em um café batendo papo com sua amiga e notou que o garçom não se afastava da mesa , pronto para atender de imediato ao menor esboço de um pedido .
A razão desta proximidade logo se esclareceu quando ouviu o garçom comentar com outro funcionário do café .
- O pá , que coisa estranha , não sei qual é o idioma que estão estas duas senhoras a falaire , mas não é que estou a entendeire tudo !

quinta-feira, 17 de julho de 2008

Pratos diferentes em viagem

Aprendi com um ex-chefe e sempre segui a risca quando em viagem fora do Brasil .
Se não der para encontrar um restaurante italiano , não arrisque em pratos desconhecidos , procure um McDonald´s se nada mais encontrar .
Uma vez , na Alemanha ,viajando com colega de difícil paladar, passei uma semana comendo massas.
Só que as vezes não dá para recusar quando gentilmente lhe oferecem um prato da terra e insistem para que prove .
Aconteceu assim com ele , profissional de varejo de qualidade.
Diretor comercial da rede de lojas de departamentos estava na China negociando um volume considerável de compras .
Concluída a negociação de compra de valor importante e quantidade de peças também significativa , recebeu convite para jantar com os parceiros comerciais .
Honrado pela encomenda o prefeito da cidade onde se localizava a fábrica sentou-se ao seu lado .
Um dos pratos a mesa era uma grande porção de escorpiões fritos .
Querendo honrar seu convidado o prefeito , com a ajuda do intérprete em inglês, perguntou-lhe se já havia provado um dos escorpiões .
Com certeza , se fosse a primeira vez , iria gostar daquela entrada pois na cidade preparavam-se os escorpiões de maneira diferente do resto da China .
Receoso por ofender seu anfitrião com uma recusa , sentia na verdade enorme repulsa pela visão do prato , aceitou provar um .
Com enorme esforço , sendo observado atentamente por quem buscava sinais de aprovação , deu rápida mastigada e engoliu logo .
A pergunta fatal veio em seguida :
- Gostou Mr ?
- Sim , saboroso .
Com um enorme sorriso derramou o prefeito metade da porção em seu prato.

quarta-feira, 16 de julho de 2008

Pérolas

No dia a dia por vezes algumas pessoas fazem comentários que merecem entrar para coleções de anedotários .
Em empresa que trabalhei um colega ganhou o apelido de Ostra .
Produzia pérolas em sequência .
Como no dia em que Sérgio K. narrava a diferença que sentia ao recomeçar sua vida no Brasil .
Havia retornado de Israel e comentava estar sua vida mais difícil do que a experimentara em Jerusalém , considerando o mesmo tempo de permanência .
Estava sem carro no Rio , já tendo retornado há mais de um ano , ao passo que em Israel , em um período mais curto ,tinha tido condições de comprar um carro do ano .
Ao que o Ostra perguntou :
- Espera aí , do ano daqui ou do ano de lá ? O calendário judeu não é diferente ?

Lembro também de estar batendo papo no bar da piscina do hotel e ouvir o comentário que em Manaus e Belém as pessoas marcam encontros para antes ou depois da chuva .
A mesma pessoa dizia que em certas ocasiões havia presenciado chuva de um lado de uma avenida e da outro lado não .
Ao que veio o comentário de outro :
- Mas vocês sabem porque não ? Olhem onde passa a linha do Equador !

sábado, 12 de julho de 2008

Barulho na viagem

Nunca consigo dormir direito em viagens longas , seja em ônibus ou avião , no máximo cochilos curtos logo interrompidos por qualquer som que apareça , a quebrar o equilíbrio de ambiente que tento formar .
Naquele dia , vindo de São Paulo para o Rio , em ônibus do Expresso Brasileiro parecia que o fato antes verdadeiro da minha insônia iria se mostrar falso .
Estava cansado , em razão do dia atribulado , e do engarrafamento de horas na Marginal Tietê até chegar a rodoviária .
Procurei no balcão um assento e consegui do vendedor a promessa de não vender a passagem para o assento ao lado .
Bacana , iria tentar dormir as 5 horas do trajeto direto até ao Rio .
Busquei a melhor posição , sapatos no chão , bagagem acondicionada logo acima ,e pronto o cansaço começou a mostrar seus efeitos .
O barulho porém me acordou no que me pareceu um pouco tempo depois .
Esquisito , parece que o motor está fora de rotação , ao máximo acelerado .
Presto atenção , não é o motor , o barulho vem de 3 fileiras à frente .
Um sujeito roncava à altos brados , parecia o som de peças se enroscando sem nenhuma lubrificação .
É muito azar eu penso .
Olho para estrada e vejo que estamos ainda em São José dos Campos , vai ser uma viagem longa .
Lembro do guardanapo que vem junto com o lanche que a empresa de ônibus distribui .
Faço 2 tampões para ver se abafa um pouco o som .
Não adiantou muito , lembrei na hora de uma amiga que comprava borrachinhas para proteção dos ouvidos , para quem faz natação .
Perguntei se nadava sempre , não meu marido ronca demais respondeu na época .
Se algo diferente acontecia eu acordava , talvez se algo diferente acontecesse ao sujeito talvez a situação se resolvesse .
O que fazer ?
Ele está , pelo barulho do ronco , encostado com a cabeça na janela .
Bato com a mão , com força , na minha janela com a esperança da vibração se propagar e acordar o infeliz .
Nada muda .
Já sei , se algo lhe cair em cima , vai acordar .
Mas o que jogar no desgraçado ?
O pacote de biscoito ainda do lanche parece ser a escolha certa .
Calculo a distância , a curva a ser feita , penso em Michael Jordan e a cesta perfeita .
O arremesso é feito ,a curva é perfeita e sucesso !!
Nada , uma breve pausa e o som volta mais forte .
Desisto , nada vai parar aquela serraria .
Quando finalmente o ônibus se aproxima da Rodoviária Novo Rio as luzes internas são acesas .
Quero sair o mais cedo possível daquele inferno e me levanto .
Outros parecem pensar o mesmo que eu e se antecipam a minha frente .
Um passageiro pára ao lado do poluidor sonoro e o sacode , uma , duas vezes .
- Ei , estamos chegando , acorde .
- Nossa , já , que sono pesado eu tive .
- É amigo , pelo menos você conseguiu dormir .
O sujeito faz uma cara abobada , a não entender a resposta .
Penso em falar mas desço correndo , sonhando com o momento de chegar em casa .

sábado, 5 de julho de 2008

Identificação

Todo mundo já passou por isto pelo menos uma vez . Ao entrar para o grupo de funcionários de uma empresa é necessário identificar-se e conhecer as pessoas .
Caso seu sobrenome tenha grafia ou som diferente o trabalho é maior .
No horário da saída , elevador cheio , a secretária do diretor financeiro reconhece Wolf , o novo funcionário da área fiscal .
Havia recebido o pedido de seu chefe para agendar uma reunião com o novo funcionários para discussão de ações relativas a incentivos fiscais .
Desejando mandar um e-mail para confirmar a reunião , Márcia se dirigiu a ele no elevador :
- Oi , tenho que marcar uma reunião sua com o Dr B. , como se escreve seu nome ?
An-to-nio soletrou Wolf disparando as gargalhadas de quem ouviu .