sexta-feira, 20 de novembro de 2015

Motivo para Seresta

Estávamos falando no almoço de lugares fora do Rio de Janeiro para ir no feriado de Zumbi quando alguém mencionou Conservatória .
A cidade é conhecida por suas rodas de seresta . De imediato disseram isto é programa de gente velha .
Preconceito puro, falta de sensibilidade em apreciar e ouvir um violão .
As vezes as intenções podem ser outras , como o acontecido naquele verão em Bela Vista – MS .
Estava de férias na universidade , para a cidade de meu pai eu fui passar umas semanas.  A cidade, na fronteira com o Paraguai , tinha no final dos anos 70 algumas limitações .
A luz fornecida pela prefeitura só ia até as 23 horas , depois disso o blecaute acontecia. Para economizar óleo nos geradores a prefeitura desligava a luz.
Desta forma os poucos bares da cidade fechavam , e um grupo de 6 a 8 universitários , de 20 e poucos anos, ficava sem ter lugar para se reunir .
Acostumados que estávamos com as facilidades da noite em SP , BH, Rio e outras grandes cidades era muito ruim ir para casa as 23 horas .
Para resolver levávamos caixas de isopor com gelo e lá colocávamos cerveja e copos .
De vez em quando uísques apareciam e a conversa rolava até as 3, 4 horas da manhã .
Ia assim a programação quando alguém teve a ideia , porque não montamos uma serenata ?
Fulano tinha um violão , outro um cavaquinho , vamos tocar na frente da casa onde mora uma menina conhecida .
Por tradição o dono da casa deveria  abrir as portas e oferecer uma bebida aos seresteiros .
Forma muito agradável de beber de graça e passar o resto da noite .
Eu conhecia duas músicas , Noite Cheia de Estrelas  de Nelson Gonçalves e Esses Moços de Lupiscínio Rodrigues . Lembraram de mais três e assim o repertório estava montado .
Numa sexta-feira começamos , fomos para a frente da casa de M. , que estudava medicina em SP e estava de férias na cidade .
Abrimos com Noite Cheia de Estrelas , “Noite alta céu risonho , a quietude é quase um sonho , o luar cai sobre a mata , qual uma chuva de prata de carinho e esplendor , só tu dormes não escuta , o teu cantor .......”
As portas da sacada se abriram , por trás da luz de um lampião surgiu  M. com a mãe e a irmã, olhares surpresos .
Pude ver os sorrisos , e feliz fiquei antes de terminar a  música quando ouvi a mãe de M. ordenar ao marido que abrisse a porta e nos oferecesse algo .
Black Label foi oferecido e aceito .
Cantamos o resto do modesto repertório, bebemos mais umas 4 doses  e saímos com aplausos da casa e dos vizinhos que apareceram .
No dia seguinte fomos notícia no jornal da cidade que saía durante a tarde  ,” Jovens trazem a seresta de volta a Bela Vista  , tradição de romantismo resgatada .... “.
Se soubesse o jornalista a real razão ....
Já que deu certo uma vez porque não tentar outra ?
Repetimos no sábado , de novo dois dias depois, e assim fomos parando em todas as casas onde sabíamos ter menina de nossa idade .
Até pedidos nos chegaram para fazer a  “surpresa “ , nestes casos a recepção era mais calorosa , até uísque 20 anos de várias marcas aparecia .
Não havíamos pensado entretanto em um problema . A cidade é muito pequena, seu núcleo urbano na época não era tão grande .Logo acabou a lista de meninas conhecidas . Cantar na frente da casa de alguém que se não conhecesse poderia dar problema . Podia aparecer um pai ou marido ciumento e lá estas questões se resolviam na bala .
R, sugeriu vamos lá em casa .  Cantar para quem foi a pergunta .
Para minha irmã disse R.
Essa não dá disse O. , sua irmã é muito feia .
Acabou assim , depois de 3 semanas, meu grupo de seresta .
Estava na hora mesmo de voltar para o Rio .






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